No cenário da arte brasileira dos anos 1970, Letícia Parente inaugura uma das linguagens mais radicais e potentes da resistência estética: a videoarte. Com formação em química e trajetória científica consolidada, ela começa a produzir obras visuais somente aos quarenta anos, revelando um olhar maduro, técnico e inquieto diante de um país tomado pela censura. Seu trabalho aparece como fenda entre os saberes do laboratório e as urgências da vida política. A imagem eletrônica, ainda incipiente no Brasil, oferecia à artista um meio direto, portátil e íntimo para articular gesto, denúncia e experiência subjetiva. Sua produção não apenas inaugura uma linguagem, mas funda uma ética da imagem como lugar de embate entre corpo, poder e linguagem.

Marca Registrada como manifesto de carne

A obra Marca Registrada (1975) tornou-se um marco não apenas da trajetória de Letícia Parente, mas de toda a arte política brasileira. O vídeo mostra a artista costurando, com linha preta e agulha, a frase “MADE IN BRASIL” na sola do pé. O enquadramento é fixo. A câmera não esconde a dor, o esforço ou a brutalidade do gesto. O corpo deixa de ser objeto para tornar-se suporte. Costurar a pele é transformar a carne em texto, o sujeito em arquivo, o país em ferida. A marca, que costuma ser símbolo de consumo ou exportação, aqui aponta para a violência de uma identidade fabricada sob opressão. Letícia não performa um papel: ela inscreve um trauma. O vídeo dura pouco mais de dois minutos, mas sua contundência ecoa por décadas. É uma imagem impossível de ser esquecida.

Corpo como superfície política

A escolha da sola do pé carrega múltiplos sentidos. É por onde caminhamos, por onde tocamos o chão, por onde o país se imprime na experiência cotidiana. O pé é também lugar de humilhação, o ponto mais baixo do corpo, o que se esconde, o que não se olha. Costurar nele uma inscrição é afirmar que a história do Brasil, nos anos de chumbo, está escrita nas camadas mais profundas da carne. Letícia Parente entende que o corpo é um território de poder. Sua obra rompe com a separação entre o biográfico e o político, entre o íntimo e o estrutural. O gesto de costurar, tradicionalmente ligado ao trabalho feminino, aqui é recodificado como violência autoimposta, crítica à domesticidade forçada e à submissão dos corpos. A linha negra rasga a pele como a censura rasgava as palavras, como os aparelhos do regime marcavam os corpos de prisioneiros políticos.

Letícia Parente e a crítica à tecnociência

A artista, doutora em fisicoquímica, traz à arte uma precisão de procedimentos e um estranhamento técnico que só uma cientista poderia operar. Muitas de suas obras tensionam essa relação entre controle, saber e vigilância. Em vídeos como In (1975), onde se pendura num cabide dentro de um armário, ou Preparação I (1975), que começa como um tutorial de beleza e termina com uma encenação de enforcamento, a artista desmonta a linguagem racionalista da ciência para revelar sua face disciplinadora. Em Tarefa I (1982), a voz em off descreve o ato de passar roupas com o mesmo vocabulário técnico de um protocolo experimental, revelando o cotidiano como laboratório de opressão. Esse trânsito entre arte, ciência e política faz de Letícia Parente uma das figuras mais complexas da arte brasileira do século XX. Sua crítica não é panfletária: é meticulosa, quase cirúrgica, revelando como o autoritarismo se infiltra nos mínimos gestos.

O legado da arte política brasileira

Embora sua carreira tenha durado pouco mais de uma década, Letícia Parente permanece como referência incontornável na história da arte brasileira. Sua obra foi marginalizada por anos, mas desde os anos 2000 passou a ser redescoberta por curadores, pesquisadores e instituições. Hoje integra acervos importantes, como o do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e o Museu de Arte Contemporânea da USP. Seu trabalho dialoga com artistas contemporâneos que também pensam o corpo como campo de conflito, como Rosângela Rennó, Berna Reale e Ayrson Heráclito. Em tempos de recrudescimento político, suas imagens adquirem novos sentidos. A sola costurada continua a arder. Sua videoarte revela que a arte política brasileira não é apenas reação, mas forma rigorosa de pensar a linguagem, o corpo e o país como um só tecido, marcado, vivo e resistente.

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